segunda-feira, 6 de julho de 2009


Era um dia comum. Ela saiu do trabalho e passou na padaria. A próxima parada seria seu apartamento. De certo, já, sua refeição e os afazeres após a ducha demorada para relaxar sob a água - talvez só uma desculpa para deixar as horas correrem sem culpa -, ela não se importaria.
De resto naquela noite - pensava com quase cem por cento de certeza sua razão - não haveria mais surpresas. As horas e o lugares para isso já haviam ficado para trás.
Sabia que seu lar estava a sua espera e que tudo estaria no mesmo lugar. Almofadas e talheres. Nada a surpreenderia: alguém adormecido no sofá com um livro sobre o colo, os óculos caídos no tapete; um copo divertido, sujo, em cima da mesinha central da sala; uma janela aberta deixando o vento voar as cortinas cor salmão.
Tudo estaria da mesma forma. A louça limpa e as comidas na geladeira, sobrando, renegadas. A cama arrumada com seu travesseiro e o banheiro claro com algumas roupas deixadas de canto para a lavanderia e seus cremes e shamppos enfileirados no box. A mesma melodia muda. O silêncio reinando nas peças e cômodos. Imperando uma ideologia de paz que não era sentida.
O caminho para seu local de destino era voltado a estes pensamentos desgostosos e reais. Íntimos e rotineiros.
Ela abriu a porta, lá estavam suas coisinhas reunidas em seu pequeno espaço.
Realmente, tudo estava em seu lugar. Nenhuma surpresa; nada fora do lugar.
Largou a bolsa sobre a poltrona e olhou em volta. Suas cores, formatos, tudo muito seu e parecido consigo. Sentiu uma dor lhe dilacerar o peito. Aquelas molduras velhas penduradas nas paredes recém pintadas mas ainda velhas lhe mirando sem desviar. A sala tão cheia de objetos e tão vazia.
Juntando-se ao silêncio seu, algumas vozes e música vinham de uma casa ao lado. Gargalhadas de uma provável janta de aniversário.
Pessoas reunidas; felizes.
De si, restou-lhe apenas seguir seus planos ao som das canções de samba apaixonadas que invadiam a janela sem pedir-lhe permissão.
Eram canções antigas, de poetas mortos. E as lembranças eram tristes, de um passado rico na infância humilde dos verões.



Sinara Dutra


2 comentários:

Ângela Tagliapietra disse...

Canções apaixonadas invadindo a janela sem pedir licença e recordações de uma infância humilde dos verões da uma sensação de alegria. Talvez não seja uma lembrança triste, mas sim uma grande nostalgia que ela sente. Acho que ela quer sair um pouco do trivial, ela não parece muito faceira em saber que não vai por um acaso encontrar uma bagunça ou “barulho” diferente em seu apartamento, entretanto essa é a vida da maioria das pessoas. A rotina deixa tudo muito previsível e por um lado positivo o feijão-com-arroz também torna a vida um tanto mais segura.
A sala cheia, mas quem estava vazia era ela procurando em cada canto da sua casa alguma coisa para preencher sua essência, contudo não é observando os cômodos, paredes, cores e objetos que ela vai encontrar o que faz seu coração bater mais rápido. Gostei deste texto e entendi desta forma como descrevi XD.
Saudações,

Madalena Uhul disse...

Resposta a Angel:
Sim, certamente me referi a "sambas romântigos e antigos que traziam uma recordação de um passado rico de brincadeiras, humor e alegria, que quando em sua memória naquele instante lembrado, lhe traziam uma tristeza por não mais tê-lo, por ser algo distante, impossóvel de obter novamente. A tristeza vem por isso... nostalgia e meloncolia podem ser, muitas vezes, sinônimos.
Essa era a ideia.