quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O novo que virá

O sol se põe, deixando a tarde mais sombria e mais bonita; e a noite vai chegando devagarinho. O céu fica um azul mais escuro, e as estrelas vão aparecendo. Depois, o breu. Então, a luz da lua faz iluminar. E a noite se faz total onipresente, imponente.
Mais horas se passam, num girar sem notar do planeta, e o sol novamente surge para dar luz a um novo dia. E assim, tudo outra vez. Assim, a vida vai se completando, para cada um, a sua forma. Ele nasce, ilumina o mundo, e tudo acorda para viver.
Criatura e as suas determinações. Seus instintos puros e impuros, sempre sob os julgamentos de um tal deus. Essa é a vida que se ensina, a vida que se aprende. A vida que as pessoas creem e querem amar.
Mas há algo diferente que acontece quando completa-se exatos 12 meses, a terminar em 31 de dezembro. Aí, uma certa magia de esperança injustificada e até, porquê não dizer, ilusória, de que tudo irá ser diferente, para melhor, simplesmente porque "os tempos são outros", contagia emocionalmente todos.
Nestes afloramentos sentimentais coletâneos, a certeza é de que tudo será positivo e melhor no dia porvir logo mais. Que as pessoas serão mais educadas, mais belas, mais ricas, mais inteligentes, mais tudo de bom que haja para se desejar.
Festeja-se com champanha, enquanto molhando os pés no sal do mar, a centenas de pedidos aos santos e estrelas que sejamos abençoados pelo que tivermos que sermos - pela água, pelas montanhas, nuvens e ar -, mais fortes, mais maduros, tolerantes, compreensivos e etc dali pra frente; relembramos pessoas, choramos a nostalgia de momentos felizes, e a tristeza dos ruins; lamentamos, despreparados, os nossos erros e sofremos os arrependimentos de atitudes bobas e desesperadas que partiram de nossas mãos.
Mas ao nascer do sol do dia seguinte, ao passar do porre, alcoólico ou o emocional - de alegria -, percebemos, fria e decepcionadamente, que tudo está igual. Os nossos problemas são os mesmos. Nossos defeitos. Medos. Anseios. Nada está diferente do ano que passou em algumas horas atrás.
Sabemos, pois mais maduros, e não por que o ano mudou de numeração, mas porque amadurecemos a cada instante, a cada migalha de dor, ou de felicidade, que teremos, se tivermos sorte, que enfrentarmos tantas provações ao longo dos nossos próximos minutos.
Sabemos, pois não tão burros, que a vida continua e se algo muda é o nosso jeito de tratar do que temos, sejam as coisas boas ou ruins. E que os pesos dos nossos carmas são pesos que teremos que carregarmos sós. E que as nossas dores só tocam a nós, e que mesmo repartidos, são nossos, e de ninguém mais.
E nessa reflexão que deprime após tanta euforia nas promessas e almejos no "tudo agora será diferente" - na imaginação inocente de que tudo será perfeito - a queda é de um degrau gigante, que nos remete à vida real; a realidade da qual não podemos subterfugiar em canto algum do universo.
E assim... segue o otimismo com suas facetas. A virada do ano é mais uma. Um motivo, uma data, para que todos tenham a fé de serem o que desejam ser momentaneamente ou futuramente.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ideologia... eu quero uma pra viver?

Está aí um assunto que me interessa, e intriga. Ideologia. O que é? Eu quero uma para viver?
Sei que trata-se de um conjuntinho de ideários, de pensamentos, conceitos, que, nesta loucura diária, se perde aos pingados em nossas entranhas num perdido qualificado em confusão geral. Ou, ainda, vai-se às palavras proferidas diante o que nos surpreende na doidera rotineira. Doideira porque é rotina e ainda consegue ser surpreendente. Portanto, sem razão.
Nossas persepções do ontem se modificam a cada instante do novo dia e a visão que temos ora nos perturba num novo amanhecer cheio de reviravoltas morais.
Por isso a crítica é tão absurda. O julgamento tão desaprorpriado. Exatamente porque julgamos atitudes de outros que podemos vir a imitar logo mais; ou, simplesmente, porque não estamos dentro das emoções alheias, tampouco vivenciamos o que não é nossa história. Essa é a instiga.
Se o mundo muda a cada minuto, é porque nós mudamos também. Pois, quem faz o mundo ser como é, a não sermos nós mesmos...? E ainda falamos "o mundo", como se ele tivesse vida prórpia, como se não fosse pouco parte de nós, como se não fosse resultado de nossas ações e omissões. Os homens sempre querendo fugir às responsabilidades...
Acredito muito na base dos nossos ideais. Em nossa ética ou falta desta. Neste conjunto de coisas que formam nosso caráter, bom ou ruim, bom e ruim, do jeito que dá para ser... Mas não creio numa ideologia formada, de uma vida, de um indivíduo. Não.
A ideologia vem para mim mais como uma coisa meio imóvel. Que não se mexe, muito distintamente de nossos pensamentos, e conceitos, e vontades, e desejos, que mudam freneticamente.
Talvez isso pareça muito prolixo. Um amontoado de ideias confusas para enlear opiniões internas, mas vale a pena fazer o teste. Veja um filme, pense sobre ele, e reveja-o dois ano depois.
Seus sentimentos permanecerão idênticos, imutáveis aos de outrora? Ou as situações e sensações deste espaço de tempo lhe farão mudar um pouco seus cenceitos?
A mim, ideologia vai e vem. Diferentemente daquilo que queremos. Querer é mais fácil. Surge de repente e só sabemos senti-la. Mas as ideias, os pensamentos, não.
Por isso sentir é mais fácil do que pensar, refletir, explicar.
Mas, sim, eu quero uma ideologia para viver. Eu acho...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Relatos de sexta à tarde

Caminhava rumo ao centro de Porto Alegre, em plena sexta-feira.
Antes, para chegar a estação da Trensurb Canoas, para ir até o Mercado, uma verdadeira maratona. O simples caminhar torna-se tarefa de atleta, driblando as pessoas espaçosas e aos montes. Que não sabem andar em multidão, e acabam atrapalhando e atrasando quem está com mais pressa.
Chegando na estação, um amontoamento de gente, tentando fazer uma fila para comprar em um único ghichê o seu bilhete.
Existem seis, mas aberto, apenas um. Penso que talvez os outros existam para dias de movimento. Mas, o que chamariam aquela sexta-feira, véspera de feriadão?
Espero, não pacientemente, mas comportada, minha vez. Com certo nervosismo, tento catar as moedas do bolso e acomodá-las em minha mão. Chata aquela espera. Um medo repentino de ouvir o trem estacionando, e ainda estar ali.
Fui atendida. A rapidez no atendimento é subjetiva... às vezes se tem sorte...
Eu tive sorte com o trem naquela tarde quente. Assim que desci a escada rolante, lá estava ele, parando devagar, e as dezenas de pessoas se aglomerando nas portas. Me cheguei perto, e fui com a multidão.
Dentro do trem aquele abafado. Cansada, sentei-me no chão. Que era o lugar que sobrava. Nem livro, nem música, nem nada de munição para vencer aquele tédio. Mas eu já havia vencido uma etapa daquela jornada. Só precisava permanecer ali, quieta, sentada, que logo a estação terminal viria, com a minha chegada.
Mas o saculejo, o balanço do trem, me fez enjoar. Fechei os olhos. Agora não era mais apenas permanecer quieta, sentada, eu tinha que lutar contra a tontura e a dor agúda na cabeça, que estavam a me torturar.
E logo estava eu, cercada de pessoas apressadas, empurrando umas as outras, na corrida pelos corredores. Algumas pessoas cheiram a nata! Senti esse cheiro muito forte em mais de uma. Somos obrigados, quando em público, a sentir os cheiros alheios... os cheiros de cada um.
Mais uma batalha. Estava, de fato, no centro de Porto Alegre. Entro no Mercado Público. Como recepção, aquele fedor de peixe.
Última parte da missão. Esperar. Me posicionei em lugar que eu poderia ficar cuidando. À minha vista, um enorme formigueiro colorido.
Fiquei tonta ao ver tanta gente passando de um lado para o outro. Quanta disposição! A minha energia a esta altura estava completamente esgotada. Aquilo me cansava. Minha pouca paciência se ia. Sem que eu pudesse a prender.
Minutos se tornaram horas e por aí vai. Minha ansiedade tormava formas mosntruosas. E aquele cenário já estava de terror.
E quando já estava quase vencida, quem eu esperava chegou, para me salvar da loucura que eu estavas prestes a encontrar.


Sinara Dutra

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Momento de leitura

A solitária

As escolas têm aquele ar maldoso, da típica sinceridade das crianças. Nela, pode se traumatizar uma pessoa que, talvez, jamais se curará.
Para Nora, a escola era uma armadílhia. Como se tivesse que cuidar os passos para pisar por onde andava. Como se os degraus ou o piso pudessem de repente desaparecer e abrir-se um buraco em seus lugares. Das paredes saírem mãos a fim de a puxar para dentro de um acimentado sem fim. Vozes, gritos e gargalhadas eram como tiros adentrando seu corpo, este, mutilado pelas ideias de uma perseguição de ridicularização injustificada.
Sentada a um banco de cimento sem pintura, mãos nas coxas, observava as outras crianças a brincarem, num divertimento curioso. Uma alegria aparentemente inesgotável, de uma fonte invisível. Os risos soltos fáceis. As falas não direcionadas. Não censuradas. Numa forma prática de agir. Mexer os braços, as pernas, sem receio. Sem vergonha. De exibir suas formas, roupas.
Experimentava, enquanto sua observação, o sentimento de limitação quanto a tudo que via. Uma carga de culpa por algo, como se fosse uma praga a ter que conviver com todos. Uma parasita a ser posta de lado, a seu lugar.
Difícil era entender porquê se sentia e era tão diferente dos demais.
Fosse o que fosse, aquilo causava uma dor absurda. Fosse culpa de ninguém, nem mesmo de si, nem mesmo de deus, ela pensava, não importava, o que sentia jamais poderia ser dividido por dois, ou por cem. Jamais poderia reduzir sua tristeza repartindo-a com alguém, se a tivesse.
Infração sua não tentar rever seus direitos de igualdade?!
Jamais ousaria questionar uma certeza de inferioridade dita por alheios. Mostrada por estranhos. Não por si. Mas por atos que vinham de outros. Estes diziam a vozes altas o valor e o preço das ditintas visões conceituais.
Nora ficara o recreio inteiro só. Ninguém foi consigo sentar. Nem lhe falar. Sequer notaram sua presença. Era como se fosse pedaço de algum pilar. Dos muros. Da cancha, de modo que poderia até ser atingida pelos chutes e boladas que não sentiria nada. Pois não há vida dentro de um tijolo e o nada jamais sentiria dor.
O toque de recolher tocou e todos foram se diringdo às salas de aula. Menos Nora. Um pensamento havia lhe tomado a mente.
Pior do que ser odiada, é sequer ser notada. E Nora sinceramente desejou ser odiada, como judas, por todos, para sentir-se segura.
Mas ninguém poderia odiá-la. Pensou. Por que?
E muito rapidamente tudo estava vazio. E então, sentiu que daquela maneira sentia-se melhor. Perto de ninguém, não tem como ser pior. E entendeu que a solidão lhe fazia bem. Pois lhe tirava de uma posição de defesa ou um julgamento constante, onde o que valia era o que consideravam normal.
Todos os recreios de Nora, em todos seus anos na escola, foram iguais. Presa por aqueles portões enormes, aprisionando seu corpo. Contudo, seus pensamentos voavam como pássaros livres no ar. Num amadurecimento solitário às duras manhãs intermináveis e frias dos invernos e infernalmente quentes e insuportáveis dos verões ainda mais alegres para quem se encaixava nos contextos das cenas de sua vida. Porém, menos doloridos de sentir. Como quando acostumamos com a dor.
A prolixidade de sua diferença ou, indiferença, a tudo, já fazia parte do que continha em si. Como um sinal gravado no corpo. De nascença.
Consigo, carrega ainda toda a bagagem entranhada das horas em que sua exclusão lhe levava à reflexão doída do preço a ser pago por se distinguir do que é a maioria.

Sinara Dutra

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Momento Musical

Usarei este espaço por tempo indeterminado para falar sobre música. Pois minha ligação à musicalidade é intensa e íntima. E serve-me como forma de terapia.
Aqui, falarei sobre canções, letras, autores e intérpretes.
"A musicalização é o processo de construção do conhecimento musical, cujo principal objetivo é despertar e desenvolver o gosto pela música, estimulando e contribuindo com a formação global do ser humano."
Nesta terceira edição de meu "Momento Musical", como classifico minha fase, onde escrevo meus textos relacionados à música e musicalidade; os artistas que as trazem para nós e os criadores desta arte sonora, minha terceira escolhida é Marina Lima. Veja abaixo:

A cantora das canções inesquecíveis
Por Sinara Dutra
Décadas de 80, 90. A música soa à voz da "moderninha" Marina Lima.
Suas músicas tiveram repercussão nacional e tocavam por todos os lugares, das boates às rádios de shows a novelas.
Ídolo nacional; A voz feminina do pop, da MPB, dos adolescentes, dos adultos descobrindo uma nova voz; ouvia-se por todos os buracos e por todas as idades "À Francesa".
E, em "Pra começar", refletia em voz alta: Pra começar / quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo / pátrias, famílias, religiões / e preconceitos / quebrou não tem mais jeito./ Agora descubra de verdade o que você ama / e tudo pode ser seu.
E quem não cantarolava ou sabe a letra de "Fullgás"?!: Meu mundo você é quem faz / Música, letra e dança / Tudo em você é fullgás... / Você me abre seus braços e a gente faz um país...
Cantou Lobão, "Me Chama". "Chove lá fora e aqui / Faz tanto frio / Me dá vontade de saber / Aonde está você / Me telefona / Me chama, me chama, me chama..."
Morou dos cinco aos 12 anos nos Estados Unidos. Lá ganhara do pai um violão, talvez para distrair-se e não lembrar o país abandonado.
Anos depois, admitiu que após ver e ouvir Gal Costa, fora paixão à primeira vista. E aos 17 anos, após musicalizar poemas do irmão Antônio Cícero, com quem teve parceria em muitas canções, retorna ao Brasil e tem uma canção sua cantada pela própria cantora Gal Costa, seu ídolo. Uma canção sua ainda quase fora gravada por Maria Bathânia, mas antes censurada e proibida.
Numa época em que a sexualidade era tabu, sua bissexualidade era orgulho e estímulo para quem se calava e se reprimia em uma sociedade ainda mais imatura e preconceituosa.
Dona de uma discografia de mais de 20 álbuns, e cerca de 11 Ouros, tem sua carreira ameaçada no ano de 1993, após problemas pessoais e a morte de seu pai, culminando no mergulho profundo da depressão, que lhe afastou dos palcos. Tal doença lhe causou danos nas cordas vocais.
E em 1998, o mundo nota sua deficiência vocal. Porém, sem cessar mais, anuncia que está fazendo aulas de canto e fono, "para reaprender a usar sua voz". Não para mais.
Hoje, com 54 anos, lança "Lá nos Primórdios", novo álbum baseado no show "Primórdios", um espetáculo, que uniu, ano passado, a música visceral da cantora com elementos de dança, teatro e artes plásticas, dirigido por Monique Gardenberg, e que não deixou uma cadeira sequer do Auditório Ibirapuera ficar vazia. Não era pra menos: Marina construiu ali uma verdadeira experiência sensorial – e muito emocionante – para seu público.
Em 2010, lançará o livro "Marina Lima Entre as Coisas, que conta o que falou nas diversas entrevistas que deu ao longo de sua carreira polêmica.
Marina Lima é história na música brasileira. É nome forte, conhecido por várias gerações. Suas canções foram e são cantadas de cor, e uma ou mais delas faz ou fez parte da sua vida.
Conheça a discografia de Marina Lima: http://vagalume.uol.com.br/marina-lima/discografia/marina-lima.html.
Conheça seu novo trabalho: http://br.musicamp3.com/0335872/Marina_Lima/La_Nos_Primordios_/


O estandarte do sanatório geral de Chico Buarque
Por Sinara Dutra
“‘Vai passar nessa avenida um samba popular’, Chico Buarque de Hollanda, compositor.
E ‘ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais’, o escritor Chico Buarque imortalizava ao tom das marchas de sambas dos velhos e saudosos carnavais a história de um Brasil que contou e cantou em épocas de repressão e regime militar. Às épocas em que o “aqui” tão referido era o país já tão massacrado porém mais defendido e menos acovardado.
‘Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória’, o Chico exilado na Itália, falando três línguas, tornou-se professor.
‘Das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações’, Chico Buarque narrava a morte lenta de um país morto de fome, calado às bocas às forças (armadas) em clara e despeitada represália à crítica e à censura à liberdade de expressão dos ides de 1969, voltando à sua Pátria Amada como o artista mais ativo na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Chico Buarque de Hollanda, carioca, brasileiro.
‘Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do boulevard’, Chico ironizava neste trecho a burguesia e à ignorância dos poderosos como cronista.
Sua Roda Viva, obra teatral de muita repercução e sucesso, que virou símbolo da ditadura militar, teve seu cenário invadido por cem pessoas do Comando de Caça aos Comunistas que depredou o cenário e espancou os artistas: ‘Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar, a evolução da liberdade até o dia clarear’, Chico, dramaturgo.
Sim, a ‘evolução da liberdade’ que sucedeu-se graças a muitos artistas brasileiros, que não calaram a sua voz , como Chico, cantor.
Mas também poeta, ator e um dos homens mais inteligentes da nossa classe de estrelas que brilham no cenário mais rico de nossas artes.
Chico Buarque de Hollanda, tímido e ‘devagar’, foi ganhador do mesmo festival que popularizou a frenética porém sutil Elis Regina, ganhadora do I Festival Nacional da Música Popular Brasileira, a qual Chico ganhara sua segunda edição, e, no dia 10 de outubro de 1966, data da final, iniciou o processo que designaria Chico Buarque como unanimidade nacional, ultrapassando décadas e se fortalecendo cada vez mais como compositor e cantor, reconhecido nacional e internacionalmente.
Chico Buarque compôs Atrás da Porta e Cio da terra, que Elis Regina interpretou com suas performances ímpares; e diversas canções gravadas e interpretadas por Milton Nascimento, Oswaldo Montenegro, Angêla Maria, Ney Matogrosso, Cauby Peixoto etc, sendo ele parceiro de Tom Jobim, Caetano Veloso, Vinícius de Moares, Toquinho dentre tantos. E, com Vinícius de Moraes em sua alta sensibilidade, pintou a MPB de cinza com a tristeza da história fidedigna do povo brasileiro em “Gente Humilde”, e coloriu debochadamente com nossos verdes louros com “Vai passar” a história da música nacional.
Conheça a discografia de Chico Buarque: http://vagalume.uol.com.br/chico-buarque/discografia/.








A intérprete da vez: Maria Bethânia. Veja abaixo.

Por Sinara Dutra
Me apaixonei pela Bethânia faz poucos meses. Bastou ouvir Fera Ferida, gravação marcante feita por Roberto e Erasmo Carlos para que eu me interessasse por tudo que ela fazia.
E ao procurar e ver o que era Bathânia, apenas constatei a diva, a majestosa mulher e cantora que contribiu com a construção da música popular brasileira - rica e deslumbrante.
Ela tinha dezessete anos quando saiu de uma cidadezinha no estado da Bahia, chamada Santo Amaro. Tímida, tranquila e dona de uma voz forte e suave.
Caipira e admitida caipira, diz que acha a caipirice a coisa mais chique do Brasil, e mais, que duvida que uma pessoa com seu juízo no lugar não queira uma casa no interior.
Pensou em não cantar por vergonha, timidez.
Nega convites de entrevistas, programas, apresentações porque prefere a sua casa, porque prefere cozinhar para os amigos e tomar cerveja para rir um pouco e viver seu lado criança o maior tempo possível onde se encontra à vontade.
Caipira tímida que, quando sobe no palco deixa a menina de Santo Amaro, e revela a mulher forte, macho sim senhô, e cheia de escrúpulos que quando abre a boca faz com que todos presentes se calem para apreciarem tamanha perfeição de voz e uma simplicidade generosa numa carcaça áspera de pés sujos e postura entregue à fotografia da arte em forma de mulher.
Intérprete, foi a primeira mulher a superar a marca de 1 milhão de cópias vendidas de um álbum.
Intérprete que homenageia àquele que tem sua canção gravada por ela pela tamanha carga de dramaticidade dada por si nos palcos e em cada letra falada/cantada pela voz anasalada, completamente inconfundível.
Gravou mais de cinquenta discos que não seguiram nenhuma regra. Nunca gravara nada que não quisesse, falado algo que não pensasse ou cantado algo que não se encaixasse com pedaço de si
Como não posso deixar aqui as centenas de obras adaptadas por Maria Bethânia, deixo uma pedida de um vídeo com uma canção cantada e interpretada por ela, de Rita Lee.
http://www.youtube.com/watch?v=P0vMLr1vYko
Conheça a musicalidade de Maria Bethânia.
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/maria-bethania





domingo, 30 de agosto de 2009

Luta pela vida

Em frente à Expointer 2009, em Esteio, houve mais um protesto de ativistas pela luta dos direitos animais.
Grupos da Sociedade Vegetariana Brasileira - SVBs de Porto Alegre e Canoas, assim como demais grupos como o GAE - Grupo pela Abolição ao Expecismo, de Porto Alegre, e o grupo Vanguarda fizeram um 'paredão' em frente à primeira entrada da feira para exporem seus cartazes e mostarem repúdio à 'festa'.
Este não é o primeiro protesto PACÍFICO que manifestantes pelas causas animais fazem em frente à maior exposição de animais da América Latina, porém, nenhuma destas ações diminuiu a quantidade de público no evento ao longo destes anos.
As pessoas ainda não CONSEGUEM ou não QUEREM associar a carne de todo dia à matança injusta e cruel de milhares de animais todos os dias.
E a festa é mais uma prova disto. A maioria das pessoas que passa pelos manifestantes, que distribuem panfletos e argumentos em defesa de uma vida digna para todos os seres, riem e acham que somos baderneiros, que queremos aparecer, mas há ainda algumas que, surpreendentemente, param, olham e ainda concordam que tudo é uma crueldade desnecessária, mas, mesmo assim, entram na feira e, tanto dentro do local, ou mesmo nas 'banquinhas em frente, consomem a carne animal.
Isso só vem a provar que, realmente, as pessoas não associam uma coisa à outra, cada uma a seu motivo particular, que na maioria é a ignorância e a opção de não querer ver o que há claro à suas vistas e entendimento, por comodidade e prazer próprio.
E assim animais de várias espécies continuam aprisionados, vivendo como máquinas para uso dos humanos, abatidos para uso dos humanos e os humanos cegos diante à tamanha barbárie.
Contudo, pessoas que respeitam à todas as espécies vão, todos os anos, em diferentes datas e locais, expressarem-se em união para a igualdade e a democracia na terra.
Estes grupos não morrerão. Podem as pessoas se desligarem, e mesmo estas quando morrerem, mas outras pessoas tomarão seus lugares e a luta continuará por um mundo mais justo e mais digno para todos.
Isto não é uma utopia, é um compromisso de quem vê além; que PENSA por si, e não pelos outros, adotando viéis de padrões baixíssimos; que repensa a sua cultura e a muda conforme seu julgamento de correto e justo, e um depoimento de quem nao CONSEGUE aceitar a esta realidade horrenda e descriminatória que ultrapassa todos os limites da injustiça.
Sinara Dutra

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Nos bastidores da "festa"

Fico pensando, quando estou em alguma festa, por exemplo, que atrás de alguns tijolos há pessoas trabalhando para que meu prato esteja servido, meu copo cheio e meu divertimento mais prazeroso.
Assim é em quase tudo.
Quando nos bares e restaurantes, boates, turmas às conversas distraídas da semana e seus pedidos sendo preparados na cozinha que se esconde atrás de algumas portas.
E quanto aos zoológicos, que fazem a diversão das crianças, conhecendo girafas, elefantes e tantos outros animais, e do outro lado estão os bichos aprisionados em jaulas, como amostras, assim como sapatos em vitrines.
E nas pessoas que me lêm agora, falando mais uma vez sobre a justiça e a democracia, que pensam eu ser uma demagoga, que falo mas não faço, que julgo mas não me autocritico; que só sei falar. E se falo, que só falo sobre as injustiças em relação aos animais e não a respeito dos seres humanos.
Pois bem, cá estou fazendo o que acho ser justo, mais uma vez.
Falando por quem não tem voz para se defender.
E falo porque quero e não porque só isso sei falar ou apenas isso me interessa.
Poderia falar do que quisesse. Porém, no momento, não consigo me manter indiferente. Porque mais uma vez, uma "festa" será feita em cima de uma matança, animal.
A Expointer é uma feira agropecuária de destaque nacional. É considerada a maior exposição de animais da América Latina.
A feira é um grande símbolo da utilização de animais pelos humanos.
A cada ano, a "festa" ganha mais público. Cada vez mais e mais. E assim, mais animais são expostos e mais animais são mortos.
E fico me indagando, de forma geral e abrangente: por que no mundo, para que alguém esteja gozando de sua felicidade, alguém ou algo têm que sofrer danos?
Por que não as coisas serem democraticamente justas?
Quando os humanos poderão ver que suas fraquezas nem sempre poderão livrar as culpas de seus erros?
Que não são superiores a nenhuma outra espécie.
Que não, não precisam comer carnes para sobreviverem, sapatos e casacos de pele para ficarem mais bonitos, elefantes equilibrados em bolas em circos para se divertirem e tantas outras formas de exploração animal que apenas demonstra a covardia e a vaidade humana.
A realidade é que, os animais hoje, embora os protestos, os argumentos carregados de fundamentos éticos e dignos, são vistos e tratados por nós, assim como os negros eram tratados pelos brancos em um tempo em que, mais uma vez, os homens se julgavam superiores.
E sem mais palavras, mais uma vez, me refugio em Voltaire, a sua vez tão valoroza de expôr a sua verdade, a mim, tão clara e óbvia:
"Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os animais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam! Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, idéias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembra tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e conhecimento.Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias.Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrarem-te suas veias mesentéricas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos do sentimento sem objectivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquines à natureza tão impertinente contradição."
Que o tempo mostre a verdade e o caminho a quem não enxerga a luz da verdade e do progresso interior.
Sinara Dutra

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Poesia do mano

Religasurfe

Enquanto a próxima onda
fico a esperar,
fecho meus olhos,
remo devagar.

No sobe e desce da água,
como um barco a navegar.
Me sinto como um viking,
sem nenhum receio do mar.

Celebro a água, a brisa e o sol,
tudo a me tocar.
E, juntos, nos tornamos um todo,
um só corpo a dançar.

Feliz está minh’alma
que quase chora ao constatar
o quanto de tão pura vida
tenho dentro a pulsar.

Sem saber ao certo como,
sinto a nova série de formar.
Cessam os sons, os pensamentos,
até a gaivota pára no ar.

Tudo parece um sonho,
Daqueles que não se quer acordar.
Mas, abro os olhos, remo para o horizonte,
é hora de tudo recomeçar.

Vanderlei Dutra Filho
(Republicação)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

















Sábado passado, dia 8, vi minha irmã, Simone Dutra, coordenadora do Grupo Libertação Animal- Canoas, pertencente à Sociedade Vegetariana Brasileira, tornar-se uma agente de saúde humana.
Isso só vem a mostrar claramente o que ela é. Uma pessoa que ama os seres do planeta em que vive, seja ele bicho humano, seja ele o bicho que for, dos milhares que existem na terra. Que não somente ama, mas que, de forma atuante, defende e cuida daqueles que necessitam de sua ajuda, agora, oficialmente, fundamentada em dois anos e meio de curso que a preparou para amenizar as dores dos enfermos, trabalho que faz com o respeito que todos os profissionais que trabalham diretamente com doentes deveriam ter e o mesmo respeito pelo que cuida e busca o cumprimento das leis que protegem os animais, assim como a fomentação de leis que ainda não os protegem.
Após a cerimônia, um coquetel vegano (comida 100% vegetal) para festejar com respeito os dois anos e meio de estudo, de aprendizado, de tempestades enfrentadas, que só encorajam e fortalecem mais a quem as ultrapassa, à força de vontade e à determinação de seguir em frente para concluir um projeto que para ser finalizado, passa, ao longo do tempo de curso, por longas e difíceis aprovações.
Sinara Dutra

quinta-feira, 23 de julho de 2009

A vida de verdade
Ficar quatro dias em casa, acamada, assistindo televisão e sem viver a vida lá de fora dos portões que me protegiam, me fizeram, mais do que nunca, supervalorizar o meu espaço que, por vezes diversas, acreditei ser meu mundo.
Em dias de frio, o melhor é ficar queita, agasalhada, reunida e munida do melhor, subjetivamente falando.
Para uma pessoa que antipatiza com estranhos e humanos, sua casa, cercada de suas coisas, e principalmente, as pessoas que mais gosta e sente-se bem, pode ser um paraíso a portas fechadas, sem pensar muito.
E quantas vezes, padeci em silêncio por coisas que eu nunca aceitei porém tampouco as mudei. E por isso que tantas e tantas vezes eu, sem sucesso algum, tentei esquecer o que não achava justo e tentava apenas me centrar no que me faria feliz, trancada em meu quarto, esquecendo-me que, o que me fazia triste me impedia de alcançar a almejada felicidade, que não existia sem a minha não aceitação das injustiças, mas muito do meu protesto constante contra o que feria outros e a mim por consequência.
Então percebei que o que me invadia tão arrebatadoramente, ao contrário do que pensava, precisaria de muito para, quem sabe, me fazer viver a vida inteira de forma alienada e despreocupada.
E hoje quando saí de casa por essa manhã, nos primeiros quilômetros que percorri na ida para meu local de destino, um mato verde extenso cheio de bichos distraídos me chamaram a atenção, fazendo-me companhia boa parte da viagem. Ali estava a vida. Eles eram a vida que eu não via de minha janela.
Os bois enfrentavam o frio de 7 graus daquela manhã cinza. Andavam devagar, comiam e seguiam, sem darem um passo atrás.
Segui e então os carros é que me faziam companhia. Logo estava nas avenidas abarrotadas de automóveis da Guilherme Shell. E a vida novamente estava ali. Nos trabalhadores que levantavam para abrirem seus bares. Nas faxineiras das ruas, que lutavam com o vento para varrer as poeiras para suas pás. Nas ondas e marolas que surfistas pegam carona para tentarem voar. Nas praças e nos voos das aves de árvores em árvores. Nos rostos na multidão. Nas esquinas e nas surpresas de cada rua. No amanhecer em cima dos morros e nos anoiteceres nas gélidas serras, cerradas de paz.
E então, os minutos passaram, como de costume, sem que eu notasse, entretida em meus afazeres desgostosos, quando vi a noite caindo singela.
Logo ela era presente e eu estava na janela envidraçada ao alto da Cândido Machado e podia ver as luzes no trânsito doido e boa parte comportado e lento das faixas da Federal. E fiquei ali, de mãos nos bolsos, olhando aquela vida toda tão cheia de energia, entusiamos e espectativas.
E então amei estar ali. Vendo e ouvindo a vida buzinando lá fora, berrando enquanto o giro do globo, que não percebemos.
E meu cansaço se transformou em vontade de sentir mais a vida tocando meu corpo em forma de vento. Ou no gole estupidamente gelado que desce congelando goelas amarguradas e/ou venenosas. Nas canções gostosas que nos fazem querer demais morrer dançando. Nas tardes de praia ao som das ondas com seu vai e vem incessante.
À madrugada, retono a meu lar, aonde existe vida também, mas a vida que nada me cobra, a que eu inventei o roteiro e certo e a verdade.
Sinara Dutra

sexta-feira, 10 de julho de 2009

1 x 0 pro touro

Alguém pode me responder por que existem mais homens nas prisões do que mulheres? Isso no nundo todo...

Já ouvi muito sobre isso. A anatomia masculina é diferente. Os homens são mais fortes, por natureza. Seus corpos produzem testosterona, um hormônio de crescimento de músculos. Enfim, são mais fortes, em sua maioria, do que as mulheres, fisicamente, claro.

Essa seria uma boa desculpa: mulheres têm inveja do pênis dos homens e de sua força, de seus assassinados, espancamentos, estupros e atos exdrúxulos. Mas como não têm o vigor invejável do sexo oposto, mas a inteligência que os mesmo não têm, ficam no seu protegido mundo dos fogões e pias, na segura permanência de suas residências.

Pronto. Resolvido e respondido.

Por isso as cadeias do mundo inteiro são abarrotadas de machos e não de fêmeas, humanos. E as poquiíssimas que se encontram em sistema carcerário, ah, essas são doidas, dá bola pra elas não, tudo mal amadas!

E deve ser por isso, também, que nos divertimentos mais estúpidos, que alguns chamam de esportes, como pescaria, rinha de galo e tantas outras idiotices, só há homens, ou uma maioria esmagadora.
Ah, não podemos esquecer as tradicionais Touradas e a Corrida de Touros, espanholas.

É assim, muito divertido, o touro, ou os touros, ficam presos enquanto milhares de pessoas - espanhóis - se aglomeram para o momento em que ele(s) será(m) solto(s). Na Corrida do Touro estes saem correm enfurecidos pelas ruas da cidade, provocados pelos espectadores/jogadores do espetáculo, enquanto são espancados para que fiquem ainda mais nervosos e irados. O divertimento é fugir do bicho ou dos bichos. Essa é uma prática muito antiga na Espanha.

O bicho ou os bichos saem machucados ou até mortos; as pessoas arranhadas, pisadas, quebradas, e exibindo com orgulho seu sangue como troféu pela coragem demonstrada.

Mais uma vez, é muito difícil ver mulheres participando deste "esporte", e por isso, depois de anos da folia das famosas touradas - onde só os mais corajosos "enfrentam o touro" e puxam seu rabo, um homem veio a falecer após 14 anos da última morte da brincadeira com os touros.

Quem era o brincalhão? Tá lá em cima, mortinho. Pronto, conseguiu exibir ao mundo seu troféu. Pena que não está vivo para o ver.

Podia dirmir sem essa, hein?!

Obs: Não é um texto a favor das mulheres, tem valor muito mais profundo.

Sinara Dutra

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Existência caprichosa

Admito, não sou boa com homenagens. Descobri por esses dias, tentando fazer a algumas pessoas que se foram. Incrível como só fazemos isso para nós mesmos e pro resto desinteressado, menos para o referido.
Mas tenho que admitir, sou justa. Minha maior qualidade talvez, ou, certamente. Sim, sou justa.
Mas não consigo fazer a merda de uma homenagem. Penso eu: Será que as drogas lícitas já me prejudicaram a cuca? Ah, bem... (que situação constrangedora).
Mas eu ainda sou espertinha. Digo, valho alguma nota. Posso esquecer algumas coisinhas... mas as importantes, JAMÉ!
Sim, o que é importante sempre fica... “aquele velho ditadinho...”.
E pra falar mais sobre isso, eu gosto de ditadinhos bobos que falam a real, tipo “a fruta nunca cai muito longe do pé.”.
Pois é... essa é uma coisinha gracinha de se dizer... né? As pessoas nunca vão rebater isso.
“Mais vale um pássaro na mão que dois voando”.
Essa claro que podem rebater. Pois é mais delicada... porque se trata de algo mais pessoal, subjetivo: “‘mais vale uma’ e por aí vai..."... mas, vale pra quem? Vale pra pessoa que está falando! Não é uma coisa abrangente...
E esta: “O tempo é o melhor remédio...”?
Descordo...
Hoje existem tantos "remedinhos" para curar uma dor...
É verdade... (risos). Já era o tempo em que o tempo era o único remédio; existem muitos genéricos e similares hoje em dia. Que o tempo ajuda, é certo. Tá. Até porque, quanto mais nos acostumarmos com algo, mas fácil de lidar com ela vai ser. Não é?
Agora, remédios? Quantos a gente tem que tomar nesse "tempo que não passa"?
Vários... muitos. Muitos mesmo. E quem ganha a fama é o "tempo". Ah, pura mentira! (Droga, já falei que sou justa!).
Bueno, a vida mesmo sem ter que seguir, ela segue... não temos escolha... Não é mesmo?
E refletindo sobre este depoimento, penso: Nossa, como as pessoas falam merda! Falam... sempre e cada vez mais.
E um pensamento horroroso me vem à mente. “As pessoas que falam merda não deveriam ter boca”.
Mas quando digo isso, me deparo com um conflito interno...
E o que é merda? Bom, a maioria diria assim: “O que é merda pra ti, não é merda pra mim, otária!”.
E eu ficaria de boca fechada, assim como aqueles que deveriam não ter boca, segundo eu.
Ah, a vida é uma coisa de doido... e nós nada entendemos. Falar e falar.... quer coisa mais fácil? Não tem!
Basta abrir a boca e as palavras vão saindo... saindo, como um cuspe tomado de vida.... é assim!
Aí a Angel diz: “nós entendemos de muitas coisas, só que as pessoas pegam a parte pra entender o todo, e se pega o todo para entender a parte, por isso que sai muitas bosticas.”
Às vezes, um todo é apenas uma parte. E uma parte às vezes não se encaixa num todo.
Assim, neste dilema de partes que não se encaixam, neste momento, para mim, a morte de Michael Jackson não se encaixa numa noite boa de inverno.
Não importa onde estarei... não estarei bem, não totalmente, porque ele está morto e ele era um cara legal...
Estou calma. É que estou em uma fase que quero aproveitar tudo, ou, reaproveitar tudo... seja lá pro que for e, tentar homenageá-lo é uma tentativa de usar o que já é assunto para o resto, mas em mim ainda sentimento, em um texto que fala de muitas coisas embaralhadas, que nem se encaixam. Mais ou menos uma coisa amontoada e reciclada, que está em moda nos dias modernos.
E é assim como a vida - que levamos empurrando com a barriga - que deixo meu tributo a quem teve boca e a usou com primor.
Sinara Dutra

terça-feira, 7 de julho de 2009

O que falta?

Faz tempo que a nossa governadora, dona Yeda Crusius, anda vacilando por aí. Isso não é segredo, não.
É um tanto de maracutaia e coisas mal explicadas: A estranha compra de uma mansão pouco tempo depois da posse - possível doação de Lair Fest de 400 mil para a compra de uma casa no bairro Vila Jardim, segundo o delegado Luiz Fernando Tubino, ex-chefe da polícia civil aqui do Estado, na CPI no ano passado (olha que fofo da parte do Lair); Irregularidades na sua campanha, em 2006, e em sua gestão como governante (que vergonha); Envolvimento no caso Detran, onde houve fraude de 44 milhões dos cofres públicos e improbidade administrativa... etc?
O PSol, incansável na luta para o impeachment da Governadora, entra com pedido, amanhã, na Justiça Federal de Santa Maria, de bloqueio dos bens e das contas bancárias de Yeda, do seu marido e do secretário, através o advogado do partido denunciante, Pedro Ruas, também vereador do partido de Luciana Genro.
O principal suspeito do desvio, Lair Farst, empresário tucano, um dos coordenadores da campanha de Yeda em 2006, por ter relações estreitas e delicadas com boa parte do secretariado da nossa Governadora, acabou resultando na demissão de quatro secretários, além do chefe da Casa Civil, do comandante da Brigada Militar, e do chefe do escritório do Rio Grande do Sul em Brasília.
Ainda tem muita coisa podre. Olhem só.
O tal figurão, Lair fest, para aliviar a sua do caso, resolveu mudar de lado. Sério! Rumores de que ele teria gravado conversas com o então chefe do escritório em Brasília, Marcelo Cavalcante, levaram os deputados gaúchos a propor o, por mim, e pelo PSol, tão desejado impeachment da "nossa governadora" (dói dizer isso).
Mas... bem, as gravações foram levadas ao Ministério Público, mas... como Yeda garantiu maioria na Assembleia com o auxílio do poderoso PDT, nada foi adiante... e sabem por quê? haha. Porque fora feito um acordo entre PDT e PSDB para salvarem Yeda Crusius e o deputado Paulo Pereira da Silva, à época, ameassado de cassação. O acordo era para fortalecer o aliamento dos partidos e safar os dois corruptos.
Mas a história é punk. Tem mais.
Tudo parecia tranquilinho quando, em fevereiro deste ano, Marcelo Cavalcante, o chefe do escritório do... ah, acabei de mencionar... apareceu morto, boiando no lago Paranoá. Disseram que fora suicídio causado por depressão. Será que não foi culpa retardada?
Escândalo para ninguém botar defeito, né?
Petistas também querem impeachment, mas são os do PSol que estão na cola da Governadora. As acusações são enormes. Formação de quadrilha... improbidade administrativa... biri-bororó.
Ai, que saudade dos caras-pintadas.
Isso tudo só aconteceu e acontece ainda por causa da passionalidade ou da preguiça ou da ceguice dessa geração. Tempos atrás já teríamos posto Yeda em seu lugar - lavando roupa em casa (sem querer ofender as lavadeiras). Ou na prisão, que seria mais justo.
A questão é que, além de não saber governar o Rio Grande (e nenhum outro Estado, com certeza), roubou! Que feio senhora Yeda. Fico pensando no quê pensaria seu sogro, o sr. Crusius... quanta lama.
No mais, esperemos que Simone Fortes, juíza que cuida do caso, receba luz "divina" para dar um bom final a isto tudo.


Sinara Dutra

segunda-feira, 6 de julho de 2009


Era um dia comum. Ela saiu do trabalho e passou na padaria. A próxima parada seria seu apartamento. De certo, já, sua refeição e os afazeres após a ducha demorada para relaxar sob a água - talvez só uma desculpa para deixar as horas correrem sem culpa -, ela não se importaria.
De resto naquela noite - pensava com quase cem por cento de certeza sua razão - não haveria mais surpresas. As horas e o lugares para isso já haviam ficado para trás.
Sabia que seu lar estava a sua espera e que tudo estaria no mesmo lugar. Almofadas e talheres. Nada a surpreenderia: alguém adormecido no sofá com um livro sobre o colo, os óculos caídos no tapete; um copo divertido, sujo, em cima da mesinha central da sala; uma janela aberta deixando o vento voar as cortinas cor salmão.
Tudo estaria da mesma forma. A louça limpa e as comidas na geladeira, sobrando, renegadas. A cama arrumada com seu travesseiro e o banheiro claro com algumas roupas deixadas de canto para a lavanderia e seus cremes e shamppos enfileirados no box. A mesma melodia muda. O silêncio reinando nas peças e cômodos. Imperando uma ideologia de paz que não era sentida.
O caminho para seu local de destino era voltado a estes pensamentos desgostosos e reais. Íntimos e rotineiros.
Ela abriu a porta, lá estavam suas coisinhas reunidas em seu pequeno espaço.
Realmente, tudo estava em seu lugar. Nenhuma surpresa; nada fora do lugar.
Largou a bolsa sobre a poltrona e olhou em volta. Suas cores, formatos, tudo muito seu e parecido consigo. Sentiu uma dor lhe dilacerar o peito. Aquelas molduras velhas penduradas nas paredes recém pintadas mas ainda velhas lhe mirando sem desviar. A sala tão cheia de objetos e tão vazia.
Juntando-se ao silêncio seu, algumas vozes e música vinham de uma casa ao lado. Gargalhadas de uma provável janta de aniversário.
Pessoas reunidas; felizes.
De si, restou-lhe apenas seguir seus planos ao som das canções de samba apaixonadas que invadiam a janela sem pedir-lhe permissão.
Eram canções antigas, de poetas mortos. E as lembranças eram tristes, de um passado rico na infância humilde dos verões.



Sinara Dutra


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Somos legais... sério!

Turminha bem doidinha.
Um pouco de nossas nuances. A praia de Tramanda num feriado; festa-surpresa da Fernanda e um ataque de infantilidade num sábado à tarde que invadiu a noite... um domingo no gramado com sol para revitalizar as energias; show das Paquitas; momentos de ilucidez e inutilidade... e os bichos soltos, todos loucos também.




Sinara Dutra

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A segunda perfeição

Se não me engano, a primeira perfeição da vida é a felicidade. É, é sim.
E da mesma maneira como perfeitos, por vezes são, também, raros. Há quem não as conhece. Sorri sem sentir felicidade ou alegria estufando no peito.
A vida é mesmo complicadinha às vezes, e o ser humano mais ainda. Sem falar nos desencontros, contratempos, enganos, erros...
Mas chega um momento na vida das pessoas, acredita a minha imaginação baseada na minha própria vida, que pensamos: "espere um pouco aí garota, cadê aquele sentimento gostoso que provoca gargalhadas fantásticas?".
É mesmo uma tentação não ficar deitado em casa, na cômoda, macia e quente cama do nosso tão íntimo quarto, sofrendo nossas dores e pensando em como somos azarados. Não conseguindo ver que a alegria, efêmera, exagerada ou forçada, seja lá como for, está bem à nossa face.
Um dia, qualquer, algumas amigas numa tarde de final de semana - daqueles que nós escolhemos o que queremos fazer, longe dos comandos dos nossos xerifes diários e indesejáveis - resolveram inventar a alegria que não seria apenas momentânea, mas alegre em todos os instantes em que a obra viesse à tona pelas mãos do criador.
Pois a alegria não foi até elas, estas foram até ela.
Divido a arte para quem tem o humor forasteiro e viajante, conhecedor das besteiróides que rolam numa reunião alegre de bons amigos, que, raramente quando contadas, têm graça fiel do momento.
Galera do Busão. Não é besteira, é obra de arte.



Sinara Dutra

sexta-feira, 19 de junho de 2009

QUERO LIBERDADE

Com o avanço da tecnologia, internet, liberdade de expressão, a não censuras a pensamentos, ideias e filosofia de vida, dentre tantas outras coisas, ganhamos, nós, humanos, o direito que há muito lutaram para conseguir e que, no entanto, só nós, nesta geração desprovida de inteligência podemos gozar. Eu disse, "podemos".
O problema não são as facilidades que recebemos para conquistarmos o que queremos. O problema é não sabermos o que queremos.
Temos mais ferramentas em nossas mãos para subirmos montanhas, das mais altas, do que os de outrora, e mesmo assim preferimos pichar praças, nos drogar e reclamar de coisas nas quais jamais fizemos algo para mudá-las. Tá certo, reclamar é mais fácil. Falar mal da política virou esporte e ser do contra virou moda.
Reclamar de uma liberdade e sentir-se alienado por uma mídia que controla uma maioria burra mostra que, só pelo fato de ter a consciência de estar envolvido por quem nos aliena, não está preso a nada nem a ninguém, exceto se quiser, obviamente.
Liberdade para mudarmos inclusive a alienação do povo também deveria caber a nós. Mas falta a coragem. Principalmente riquinhos que nunca trabalharam e não entendem de nada sobre a repressão de quem paga àquele que obedece para sobreviver.
Se isso for uma submissão dos fracos, como se fosse uma venda de si ao sistema, talvez seja uma boa hora para as coisas mudarem.
Mas quem dará o primeiro passo?
Ditadura para ser livre é pra quem não sabe usar a sua liberdade para mudar o que não presta, abrir a boca e berrar pelos que não falam, e usar as ferramentas certas para alcançar a sua felicidade, mesmo que esta seja triste.



Sinara Dutra

terça-feira, 16 de junho de 2009

O circo diário
Escrevo às 7h30min em um outuno frio de uma manhã cinza que promete sol. Faz 15 graus. Pessoas andando às pressas, subindo e descendo de ônibus lotados e também apressados.
Uma manhã sem graça e, da vida, apenas planos a curtos prazos "almoçarei em casa, talvez no Boteco do Zé". Do resto, quem saberá?
Meus olhos observam os olhares perdidos de quem viaja de pé no balanço do coletivo. Imagino que pensam em suas contas que vencerão ao final do mês.
Aqui, é possível ver as expressões de sono das pessoas, eretas, abraçadas aos ferros de segurança dos carros abarrotados de passageiros.
Posso sentir seus hálitos. Suas baforadas de café; espirros com muco; seus perfumes enjoativos e bons.
Posso ver em suas mochilas, uma quantidade absurda de coisas, o que indica que passarão o dia inteiro fora de casa, por isso levam casacos mais quentes, caso necessário, ou para o anoitecer; comidas em potes, para almoçarem sem custo em restaurantes, mp3 para aguentar as longas esperas e o tempo só, aos pensamentos aleatórios que vão de uma alegria estantânea a uma infelicidade sem razões.
Sou passageira do B56. Me dirigo ao aeroporto, para após pegar o metrô e dirigir-me à minha empresa.
Da janela, posso ver a quantidade de gente dentro de suas roupas, nas calçadas e paradas, uns sorrisos soltos ao ar frio, fazendo com que a temperatura quente da boca provoque uma fumaça branca. E alguns rostos sérios, depressivos, exaustos .
Meu passeio é pura observação. Ali, quentinha, com meus pensamentos soltos e perdidos em minha cuca. Faço da minha viagem monto um álbum de fotografias de rostos e expressões, para distrair-me e não pensar na vida.
As lojas se abrem, aos poucos, ao longo do meu trajeto. As ruas tomam cores, sons. E os coloridos invadem a cidade; mantas, tocas, luvas, mochilas, pastas etc.
Almas em corpos perfeitos e imperfeitos; sonhos, desejos e ânimos distintos, sentados juntos no mesmo banco.
Tudo e todos com suas coisas, na democracia de ir e vir, no ganho de sua sobrevivência.
Sigo meu curso e, de repente, chego a meu destino.
Tudo já está montado. A cidade acordada e suas praças avivadas. O circo todo armado em lonas que não permitem que a tudo vejamos. O circo da vida. Colorido, (des)organizado e tediante quando não trágico.
As surpresas também às vezes aparecem...
Sinara Dutra

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A menina-mulher Fernanda
Ser criança é achar que o mundo é feito de fantasias, sorrisos e brincadeiras; Ser criança é comer algodão doce e se lambuzar; Ser criança é acreditar num mundo cor de rosa, cheio de pipocas; É ser inesquecivelmente feliz com muito pouco; É se tornar gigante diante de gigantescos pequenos obstáculos; Ser criança é fazer amigos antes mesmo de saber o nome deles; É conseguir perdoar muito mais fácil do que brigar. Ser criança é ter o dia mais feliz da vida, todos os dias; Ser criança é estar de mãos dadas com a vida na melhor das intenções; É acreditar no momento presente com tudo o que oferece, é aceitar o novo e desejar o máximo; Ser criança é chorar sem saber porquê; Ser criança é estar em constante estágio de aprendizado, é querer buscar e descobrir verdades sem a armadura da dúvida; Ser criança é olhar e não ver o perigo. Ser criança é ter um riso franco esparramado pelo rosto, mesmo em dia de chuva, é adorar deitar na grama, ver figuras nas nuvens e criar histórias; Ser criança é colar o nariz na vidraça e espiar o dia lá fora; É gostar de casquinha de sorvete, de bolo de chocolate, de passar a ponta do dedo no merengue; Ser criança é acreditar, esperar, confiar; E é ter coragem de não ter medo; Ser criança é querer ser feliz; Ser criança é saber embrulhar desapontamentos e abrir caixinhas de surpresas; Ser criança é sorrir e fazer sorrir; Ser criança é ter sempre uma pergunta na ponta da língua e querer muito todas as respostas; Ser criança é misturar sorvete com televisão, computador com cheiro de flor, passarinho com goma de mascar, lágrimas com sorrisos; Ser criança é errar e não assumir o erro; Ser criança é habitar no país da fantasia, viver rodeado de personagens imaginários, gostar de quem olha no olho e fala baixo; Ser criança é pedir com os olhos; Ser criança é gostar de sentar na janela e detestar a hora de ir para a cama; Ser criança é cantar fora do tom e dar risadas se alguém corrige; Ser criança é ser capaz de perdoar e anestesiar a dor com uma dose de sabedoria genuína e peculiar; Ser criança é andar confiante por caminhos difíceis e desconhecidos na ânsia de desvendar mistérios; Ser criança é acreditar que tudo é possível; Ser criança é gostar da brincadeira, do sonho, do impossível; Criança é saber nada e poder tudo; Ser criança é detestar relógios e compromissos; É ter pouca paciência e muita pressa; E ser criança é, também, ser o adulto que nunca esqueceu da criança que foi um dia; O adulto que consegue se reencontrar com a criança que ainda vive no seu íntimo e mais precioso território; Aquele pedaço que justifica todos os percalços e que dignifica todos os tropeços; A ingenuidade restaurada no dia-a-dia e que o transforma em herói ao reler as histórias de sua própria vida, narradas pela criança que o abraça, nas entrelinhas de um tempo que permanece imutável porque sagrado; O tempo do princípio, da origem, da própria essência.¹
Fernanda é criança, é adolescente, é mulher madura, é humana.
Criatura que, como todos seres humanos, carrega consigo por toda sua tragetória a criança que jamais morrerá dentro de si.
Ser criança é não ter vergonha de se fazer feliz. Ser criança é um dom que todos carregamos por onde formos, até o fim de nossos dias, até a velhice de nossos corpos, e o último sorriso que daremos num rosto castigado pelo tempo de ventanias e invernos com tempestades, que resplende no mesmo infantil e lúdico de um remoto começo.
Sinara Dutra
¹Autor, por mim, desconhecido
.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

A incrível natureza


Ela nasceu mulher. Batizada com nome de mulher. Vagina, seios, mãos pequenas, útero, placenta, com dom de dar à luz.
Mas não era assim que ela queria viver.
"Não era assim que eu queria ter vindo ao mundo. Não é assim que me vejo, que me gosto. Me sinto mal com meu corpo, me sinto num corpo que não é meu. Quero usar barbas - mulheres não usam. Quero malhar, ter músculos, usar roupas masculinas - mulheres não são assim. Gostaria de ter a voz grossa - mas mulheres não têm. Será que vou ter que viver uma vida inteira sem gostar de mim e ser feliz?"
Deve ser difícil enfrentar um batalhão de críticos, julgadores, juizes e guardiões da ética e da moral que é a verdade do mundo a ser seguida.
Mas esta mulher foi atrás de seu sonho.
Bizarro? Estranho? Nojento?
Pouco importa, a mulher que sentia-se presa numa carcaça que não entendia ser sua, escolheu um caminho diferente para seguir. Está no seu direito, não está?
Agora é Thomas e tem um casamento bem feliz.
Ela vira ele por vontade própria. Se tornou legalmente homem aos 24 anos de idade. Eu reflito, tento chegar a uma conclusão, mas a ideia da minha irmã ainda me vence como verdade: não adianta mudar o sexo, a aparência, o escambau, a pessoa morre como nasce.
No caso de Thomas e a esposa, isso não é problema. São o que querem e se dão o direito de serem. E têm esse direito. Não têm?
Pela incapacidade de sua esposa de engravidar, Thomas usou de seu dom para dar ao casal o fruto que tanto queriam. Thomas, por ainda ter seus órgão genitais femininos, engravidou de sêmen comprado num banco de sêmens e suas fotos publicadas na net causaram um verdadeiro escândalo mundial.
Mas Thomas não se intimidou e agora está grávido de seu segundo filho, que será amamentado pela esposa, assim como o primeiro, não me perguntem como.
Ascendam seus charutos e... viva a vida!


Sinara Dutra

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vida passageira
Somos, todos nós seres humanos, que vivem, e que morrerão, passageiros de uma vida que jamais teremos o leme por completo em nossas mãos.
Sabemos o que é a felicidade, e vamos, todos, do jeito que pudermos, atrás dela.
Por esta busca, enfrentamos perigos, nos afastamos, nos chegamos para perto, caminhamos e caminhamos, a pé, choramos, sofremos. Tudo isso e muito mais, em busca da tal felicidade, que irá, por fim, justificar a dor infinita e inexplicável da morte, que é o fim de tudo que aqui nesta vida se goza.
A vida, todos falam, é efêmera, passageira, curta, mesmo quando longa.
Ela vem e dali a pouco nos leva com ela.
A vida não tem dono. A vida age por si. Nós é quem pensamos que podemos a controlar.
Nada.
Somos apenas estrangeiros perdidos, à mercê de seus atalhos.
Marionetes no palco da espetacular existência do show da vida.
Há quem acredite inventá-la. Faz planos, sem correr, como se tivesse todo o tempo possível à sua disposição.
Esquecendo-se de que o amanhã nunca chega e que o amanhã, que é o hoje, poderá ir embora e nos levar com ele.
Que um dia morreremos e nada poderemos fazer contra essa regra.
Que um dia nos dispediremos de quem mais amamos e esse poderá ser o último adeus e, pois um dia será mesmo.
Que, definitivamente, não temos o guia dos lugares corretos a perseguir em nossa busca contra o tempo, do relógio da vida, que nunca para de contar nossos minutos nesta viagem na qual o destino é a desconhecida morte, que desentregrará um corpo e calará uma alma cheia de sonhos.
Talvez o melhor seria não planejarmos nossas horas, como se elas existissem, pois não existem. E correr contra o alarme que ameaça tocar e nos apagar daqui.
Alguns atravessam ruas distraídos, outros se encantam pelas alucinações que as drogas lícitas e ilícitas trazem, outros são absorvidos por uma terrível doença, outros fazem suas malas, viajam, veem o céu pela última vez, desta vez mais de perto, e mergulham no imenso oceano profundo.
Seus olhos se fecham.
A viagem acabou.
À todos os passageiros do voo 477, da Air France.

Sinara Dutra


terça-feira, 2 de junho de 2009

O outro lado do muro










Em 1950, o Brasil foi sede para a Copa do Mundo daquele ano. Agora, estamos em obra para mais um mundial. Isso fará milhões e milhões de brasileiros eufóricos. Se gastarão trilhões de reais em obras nos estágios, estradas etc. Mas com tudo, ao final, teremos nossa recompensa: dinheiro dos visitantes estrangeiros com nossa gastronomia, mercado de roupas, artesanatos, hotelaria etc; enfim, produtos brasileiros nas mãos de gringos de todos os lados do mundo.
Em questões financeiras fará bem ao Brasil, um país subdesenvolvido, em ascenção de crescimento, sem dúvida - um país como tantos, do futuro - e que é amado por estrangeiros em função do nosso antigo futebol de nível superior.
Porém, olhando por outro lado, meu lado mais humano, mais crítico, mais olístico - digamos que a visão não é tão positiva.
Num país onde há milhares de pessoas morando nas ruas; não tendo comida em casa; crianças morrendo de frio e desnutrição; gente numa podridão quase definitiva, uma maloca ao lado de bilionários investimentos chega a ser irônico.
Para tantos e tantos projetos que, com muita luta, foram aprovados pelo Congresso Nacional e pelas Câmaras de Vereadores Municipais, a maioria não saiu do papel exatamente por 'dizerem' não haver verba para tal. Agora, para obras milhonárias, se tem.
Como que um país tem tanto dinheiro para fazer uma supercopa e aconchegar centenas de visitantes em total luxo, e não tem COMIDA e MORADIA para seu povo?
O que é mais importante, afinal?
Morar em casebres alagados, frios, sem roupas quentes, sem comida, sem gás, sem dinheiro e ter como visinho um estádio extraordinário onde lá estão homens que ganham por mês o que tu não ganhas em todo um ano de vida de trabalho, chutando bolas e dando autógrafos, deve ser revoltante.
Uma cidade armada para olhos que vêm de longe, querendo ver coisas bonitas, do país do futebol. Tudo bem arrumadinho, como casa de pobre em dia de festa, ou dos relaxados, escondendo as sujeiradas por baixo dos tapetes. Assim, as malocas, as favelas e as vilas ficarão longe das festividades. Deixadas do jeito que são, bem em seus lugares, distantes, para não serem vistos e não estragarem os espetáculos.
Antes de Copas... atendamos nosso povo faminto, cansado de reclamar por uma vida mais digna, seu Presidente.

Sinara Dutra


quinta-feira, 28 de maio de 2009


Dieta familiar

A cervejada e a comilança estavam fazendo a festa lá em casa; temporada de casa cheia, a mãe vindo do interior para fazer exames na capital.
O frio rasgando os lábios e uma certa falta de vontade de sair de casa.
A programação era ficar em casa vendo filmes e comendo. Jogando videogame e comendo. Brincando com os cachorros e comendo. Ouvindo músicas enrolados em edredons e comendo. Sempre acompanhado de uma boa cervejinha para dar aquele ânimo para um início de inverno massacrante.
Em poucos dias todos foram notando-se arrendondandos. Notava-se uma certa perturbação em função de estarmos nos sentindo pesados e inchados. Mas ainda felizes com as comilanças e as bebedeiras.
Até que um dia, um domingo chato e regado de tudo de bom para comer e beber, eu tive uma ideia que acabei compartilhando com todos e que transformou num inferno a minha vida.
Disse que faria uma dieta para perder uns kilos. E que só tomaria cerveja aos finais de semana. Todos acharam a ideia ótima e de repente, sem que eu pudesse controlar, aquilo já era regra para todos dentro de casa.
Sim! E ao ponto de cada um cobrar do outro os excessos cometidos.
Quando me vi, estava cercada de policiais prontos a me coibir e punir com uma falha na dieta.
Os pães eram contados e bebidas só lights.
Fazia apenas dois dias que estava naquela situação limitada de meus prazeres, quando resolvi burlar um pouco a regra da casa.
Comprei uma lata, uma mísera latinha de cerveja, para tentar dar mais brilho àquele resto de dia e começo de noite chato e cansativo. Mas vi no olhar da Fernanda uma reprovação que me deu um nó na garganta ao ponto de quase impedir o líquido a adentrar minha goela. Golpe baixo dela.
Para piorar a situação, nesta mesma noite, a qual me sentia culpada e traidora da família, bate-me à porta meu vizinho para pedir algo. Ele e a esposa têm um cachorro da raça Labrador que mais parece um leitão. Eu tinha certeza de que o cão pesava uns 100 kilos, sim, ele parecia pesar isso.
E resolvi, naquela visita inesperada, lhe perguntar para confirmar. Ao que tive a surpresa que me finalizou como um golpe fatal numa luta de vale-tudo.
Ele disse-me que o seu cão pesava apenas 40 kilos. 40 kilos? Duvidei. Ele manteve sua posição. Naquele momento, eu já encarava aquilo como uma agressão. Ele me deu um tapa na cara sem piedade.
Eu, passando dos 50 e aquele "búfalo" com 40?! Ah...
Fechei a porta derrotada. Fernanda só me olhava, querendo rir e ver minha desgraça, claro, afinal, eu estava arruinando a dieta de toda uma família.
No outro dia, falei pela internet com a Ângela, na esperança de que ela me doasse palavras confortantes. E me abri. Disse que não aguentava mais aquele regime militar alimentar.
Foi então que lhe contei o ponto a que cheguei com essa repressão.
"Estava anoitecendo, eu eu acabara de chegar em casa do trabalho. Mãe no quarto, mano no seu, e Fernanda me olha e diz: Bah, que vontade de tomar uma cervejinha hoje!
Mas não pode! Logo pensei. Ela estava noite passada me fuzilando com os olhos e agora estava com aquela malícia nos olhos, me induzindo a pensamentos que iam contra o regime familiar. Eu devolvi o mesmo olhar, que logo se realizou numa trama calculada cuidadosamente com sabor de 'errado'.
Dissemos a todos que iríamos sair para locarmos uns filmes em DVD. Todos acreditaram. Saimos e compramos no boteco da frente umas latas e, como duas adolescentes, fomos tomando pela rua, enquanto olhávamos para os lados para nos reafirmarmos de que não estávamos sendo seguidas. Ríamos de nossa situação infantil, mas não sentíamos arrependimento. Aquilo nos parecia com 'liberdade'."
Ângela disse que o cão não pesaria apenas 40 kilos, o que me deixou mais crente ainda de que eu estava certa em duvidar daquele dado. Fiquei mais confiante. Ângela disse mais, que estava com dó da minha situação. E se ofereceu para ajudar no que fosse preciso.
Eu disse a ela que queria o fim daquele tratamento militar que estava por me tirar a graça de viver, e que estava com coragem de fazer um motim, armar uma rebelião.
Ângela disse que me ajudaria. Que em poucos minutos, se eu quisesse, ela estaria na porta do meu apartamento com cartazes e um megafone, aos gritos: "Liberdade, liberdade." "Não queremos mais sopinha, queremos é cevinha". "Chega de regime alimentar, queremos é nos embebedar".
Achei que aquilo seria um golpe muito forte. E optei por não fazê-lo. Foi uma decisão difícil, confesso que quase cedi, mas meus laços familiares foram mais fortes. Minha mãe poderia não resistir a uma paulada daquela.
Pus meu rabinho por dentre as pernas e engoli em seco. Arrumei minhas coisas e fui para casa. No caminho, refleti sobre tudo. Era quarta-feira e haveria jogo na televisão. Pensei comigo: "Mas hoje meu time jogará! Como não beberei pelo menos uma mísera cerveja?".
Telefonei para casa e comuniquei a todos: "A partir de agora, cerveja só no final de semana, e nas quartas-feiras, quando tiver jogo. Fernanda, bote umas pra gelar, tenha dó".
Ninguém se opôs.
Já faz quase uma semana que entrei nessa e nada de resultados.
Sou imediatista, quero ver meu corpo magro e esbelto de antes! Ângela me esclareceu o que eu já sabia: os resultaos só aperecem em dois meses!
Ouvir aquilo foi como levar um soco na boca.
Eu estava perdendo o controle. E tudo só daria certo se eu cumprisse com a dieta direitinho, ou seja, ao pé da letra. Não sabia mais se poderia fazer aquilo.
Mas a dieta segue, meio capenga, porém em pé.
Que buda me ajude e me dê a força necessária para poder concluir os 2 meses.
Tá difícil!

Sinara Dutra


terça-feira, 26 de maio de 2009

Agenor de Miranda Araújo Neto
Sou uma amante de Cazuza, e todas as palavras que venham dele me interessam. Para quem também admirava seu trabalho e suas ideias e quem é da minha geração, nascidos no ano de 1980, e que quando já o conheceu ele já estava em fase terminal ou morto, reparto trechos deste vídeo de 1988. Ao término, vários outros vídeos dele e sobre ele.

Fim!
Lucy Gordon estreou no cinema em 2001 no filme “Perfume”, fazendo papéis secundários e figurativos até chegar ao "Homem Aranha 3".
Modelo e atriz em ascenção, considerada pela imprensa, seus mais íntimos dizem que suas melhores qualidades eram as de brilhante e generosa.
Tinha 28 anos e suicidou-se um dia antes de concluir seus jamais completados 29.
O último filme em que foi vista foi Homem Aranha 3, porém ainda será vista em 2010 ou no final deste ano, como Jane Birkin em um longa-metragem sobre o cantor Serge Gainsbourg.
Bonita, realizada em seus trabalhos como modelo e atriz e em eminente crescimento profissional, Lucy se enforcou em seu apartamento alugado em Paris, onde morava com o namorado.
Ficam em mim perguntas sem respostas. Um lamento de impotência e tristeza.
O que leva uma pessoa a um ato tão fatal? O que sentiria de tão ruim? O que lhe atormentava a alma? O que lhe faltava?
Por que fama, dinheiro e beleza são considerados sinônimos de felicidade?
Não são.
Nem todas as pessoas querem isso na vida.
Esse não é um conceito que vale para todos.
Cada um tem uma ideia de felicidade que se diferencia muito e muito do estrelato e de tudo que vem com ele.
Todos podemos ter uma vida indesejada, empurrá-la com a barriga o quanto pudermos, ou até quando der, mas ainda podemos modificar tudo e vivermos uma vida parecida com a qual nos parece ideal.
Mas às vezes as teorias são muito mais bonitas do que acessíveis.
Morrer de overdose muitas vezes é erro de cálculo, mas uma trama de enforcamento demonstra uma deliberada ação, programada cuidadosamente.
Somente uma dor incalculável pode fazer uma pessoa engatilhar a própria arma que lhe tirará a vida e o convívio daqueles que ama.
Do que sentias quando se matou... quem saberá dizer?



Sinara Dutra

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Recordo-me
Não lembro sua voz.
Lembro-me de sua barba por fazer e da estranha sensação que sentia quando tocava meu rosto no seu.
Do bigode que por vezes tapava seus lábios superiores.
Do cabelo encaracolado, penteado de hora em hora para trás, por seu pente portátil e particular. Uma leve lembrança de um queixo, nariz e boca de homem.
Das brincadeiras debaixo da d’água fria do mar. Quando boiava de costas por minutos, mostrando um bom fôlego; De quando submergia na água e emergia-se mostrando primeiramente os cabelos dançando ao som das marolas; Lembro-me de rir muito daquilo e ter medo quando ele, ainda submerso, em apnéia, sob o raso das ondas, tocava minhas pernas ou pés, fazendo-me saltar gritando, assustada, numa felicidade infantil e sincera.
De acordar mais cedo aos sábados ensolarados e lhe pedir a chave do Fusca amarelo estacionado defronte ao apartamento e ficar lá dentro, brincando de dirigir, com a testa sobre a buzina e um sorriso bobo nos lábios, enquanto ele me cuidava da janela fumando seu Marlboro, filtro vermelho.
Dos sábados e domingos frios em que ficava na cama, e do seu vai e vem da cozinha, trazendo iguarias em bandejas, enquanto assistia desenhos na televisão sobre sua cama – um colchão no chão em função de seus problemas na coluna.
Das mariolas, dos picolés e das gemadas.
Do cigarro e o isqueiro no bolsinho da camisa, junto com os trocados que me dava quando pedia para as balas e bolachas.
E de quando, às vezes, com a mão esquerda, tapeava o mesmo bolso várias vezes, para dar veracidade à sua afirmativa de que não tinha nenhum trocado lá.
De me exibir aos amigos vários e conhecidos ao andarmos pelas ruas e dizer-lhes que eu era sua “relíquia”.
Das suas mãos na parte de trás do banco de minha bicicleta rosa nova. De vê-lo caminhar curvado a meu lado a passos apressados, enquanto eu pedalava sorridente e temerosa naquela nova experiência; Da segurança que me passava ao saber que sua mão equilibrava-me, até largar-me e dizer para que eu continuasse sozinha, que estaria por me seguir, e assim vê-lo ficando para atrás de mim, satisfeito e orgulhoso de me ver livre, avançando o fim da viela em ziguezague.
Da última vez que lhe vi, nas areias de Tramandaí, com suas roupas inapropriadas para um dia de sol de verão em beira-mar; Da sua distância, à espera de meu abraço.
E da despedida fria e rápida; e dum aceno distante e melancólico, que vem, muito de vez em quando me visitar à memória como um trailer de um drama numa cena em preto e branco.
Hoje, quando se chega repentino à mim, vem em tons de samba, com "Deixa isso pra lá" - e uma dança estranha com a mão - sua música predileta de cantarolar.
E assim como as marolas que lhe escondiam para me divertir, ora as nuvens o escondem mesmo quando o céu está limpo e celeste, e é nele que o encontro, na imensidão deste azul vivo do céu.
Pra ti, pai.
"Deixa isso pra lá" e "Vem chegando a madrugada"
Sinara Dutra

terça-feira, 19 de maio de 2009

Música de Yann Tiersen "La Valse d'Amelie" com o texto "Saudade" de Simone Dutra.





Saudade

Nas manhãs, ruas e parques sem flores,
Tudo comum... vês o comum esbrasear
Olhos costumeiros de paisagens frias
É o comum dos olhos que não aprendem a viajar.
Ao entardecer, somente os passos ligeiros
Histórias velhas e cansadas de quem não pode se dar ao luxo de mais
Eu procuro o que perdi,
Mesmo sabendo que além do vento que faz estradas nas estradas que percorri
Nada dos teus olhos hoje hei de vir...
Então estas mesmas ruas se enchem de tudo que não faz sentido
As lojas vendem produtos supérfluos demais
Capazes se tornam todos de me fazer acordar
Longe dos sonhos loucos e fugazes onde tua fachada sedutora se foi sem pressa de voltar.
Incinerastes também me são as lembranças, por fim
Já me faço saudosa das dunas
Aquela casinha simples de praia
Uma rua de pescadores pobres da riqueza que é tão rica por aqui.
Outonos exibem-se com charmosas folhas a cair
Pessoas se apaixonam sem se beijarem ou consentir
Meu corpo é cansado da dor que sinto sem pedir
Anseio pelas mãos do tempo que toca profundo
Muda os rostos ao sorrir
Abranda o vento, alegra as aves por aí.
Esse oco tem nome grande, de borboleta azul
E é sorriso de criança na minha inocência
Malícia inócua em chafariz.
Dor que dói em felicidade
Saudade por que foi bom, não mera saudade
Saudade do tempo, daquele dia
Das palavras, fotografias abstratas,
Tua beleza... tudo enfim.


Simone Dutra

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Poema de dois

Uma pessoa,
Duas pessoas.
Um lugar,
O paraíso.
Um paraíso,
Nadar nua.
Muito.
Água profunda.
Solidão?
Talvez...
É uma ilha com saudade de barco.
Desejo,
Um porto, sonhando ser mar
... navegar...
É uma boca com sede.
Lucidez,
Uma ponte imóvel...
...infeliz...
É um acesso de loucura ao contrário.
Uma ironia do diabo...
... debochado!
Olhe!
Prefiro sentir...
Paixão,
Imensidão... podridão...
Saciável.
Excitação,
Egoísmo em passos largos... pés descalços...
... corpulenta navegação...
Excitação, quando os beijos estão desatinados pra saírem de sua boca depressa.
Culpa.
... Excitação é um barco à deriva, rumo à infinita imensidão...
Amor,
Cuspe puro de dor, sujo de flor, feio, sem pudor...
Amor é janela batendo com o vento num temporal de verão...
Todo se emociona pra falar de amor...
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não! Amor é um exagero... também não. É um desadoro... Uma batelada? Um exame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego?
Talvez por que não tivesse sentido, talvez por que não houvesse explicação, esse negócio de amor não sei explicar...
Amor é maré com raiva, de ondas iradas...
Amor é enxame de abelhas... é picada que mata... é corpo mutilado...
Da mesma maneira que o amor é doce, ele ensina a ser frio, ensina a perder.
Voo livre... sem pretensão...
Aprendiz de lição...
Não apaga nenhuma palavra...
Não paga nenhuma palavra?
Apaga os sinais?
Frio, não?
O amor não apaga nenhuma palavra, ficam todas guardadas.
Palavras frias guardadas num peito quente e terno...
Palavras doces e meigas guardadas em um peito frio e nada terno.


Sinara Dutra e Ângela Tagliapietra